Palavra do autor – Edney Silvestre


Se eu fechar os olhos agora, ainda posso sentir o sangue dela grudado em meus dedos
(Trecho do livro Se eu fechar os olhos agora)

Vencedor dos dois mais importantes prêmios da literatura brasileira em 2010, o São Paulo de Literatura, como melhor autor estreante, e o Jabuti de melhor romance, o autor de Se eu fechar os olhos agora, Edney Silvestre, tem muito o que comemorar. Seu romance de estreia conquistou de imediato o reconhecimento da crítica e do público. “Ter sido considerado merecedor desses prêmios me deixa muito feliz”, afirma. “Sinto-me privilegiado em receber tanto carinho por parte dos livreiros, críticos, colegas, leitores e editores. Os prêmios levaram muita gente a tomar conhecimento do meu novo livro e estimulou a vontade de lê-lo, o que é o mais gratificante para todo escritor”.

Se eu fechar os olhos agora tem uma trama eletrizante e comovente, que prende a atenção. A leitura flui. Conta a história de dois meninos que encontram o corpo de uma linda mulher, morta e mutilada, às margens de um lago, numa pequena cidade fluminense. Assustados, eles vão à polícia, onde acabam sendo tratados como suspeitos até o marido da vítima confessar o crime. Mas os meninos não se convencem e iniciam uma investigação paralela auxiliados por um ex-preso político, o que desencadeia o suspense da trama. Ao mesmo tempo, o livro retrata o cenário político e cultural dos anos 1960, caracterizados pela corrupção, violência policial e racismo.

Segundo Edney Silvestre, todo autor se inspira no que viu, no que leu, no que observa… “Se eu fechar os olhos agora tem um pouco de tudo isso. A narrativa ancora-se na história real do nosso país, desde o período de ouro do café no Vale do Paraíba, em meados do século 19, passando pela ditadura de Getúlio Vargas, pela Guerra Fria, pelos atribulados anos 1960, até chegar aos tempos atuais, após os atentados de 11 de setembro”. Para ele, a criação é sempre um mistério, por ser imprevisível e incontrolável. “Meu processo de maturação é paulatino: levei seis anos para considerar terminado o texto deste meu primeiro romance”.

Natural de Valença, no Rio de Janeiro, Edney conta que se tornar jornalista foi uma escolha natural, porque já escrevia. Ele tem uma carreira bem-sucedida nessa área: começou na Bloch Editores, foi correspondente internacional do jornal O Globo e da TV Globo e hoje faz reportagens para o Jornal Nacional, o Bom Dia Brasil e o Jornal da Globo, apresentando ainda o programa Espaço Aberto Literatura, na Globo News, em que entrevista grandes nomes do mundo literário. “A entrevista que mais me emocionou foi a de Adelia Prado, pouco depois do diagnóstico de que ela estava curada do câncer”, lembra. “E a mais difícil foi a de José Saramago, porque exigir que nos deslocássemos até uma ilha perto da costa africana. Mas valeu a pena, pois ele se mostrou um homem brilhante e encantador”.

Quando começou no jornalismo, o escritor traduzia textos do inglês e do espanhol. “Era um tempo em que autores como Clarice Lispector, Carlos Drummond de Andrade, Otto Maria Carpeaux e Carlos Heitor Cony, apenas para citar alguns, construíam suas obras literárias e trabalhavam em redações de jornais e revistas. Sempre achei que literatura e jornalismo são áreas interligadas – uma enriquece a outra”.

Na literatura, os primeiros trabalhos de Edney Silvestre foram livros de crônicas: Dias de cachorro louco, de 1995, e Outros tempos, de 2002. Em 2003, publicou Contestadores, reunindo entrevistas feitas com figuras originais e grandes pensadores, como Edward W. Said, Norman Mailer, Paulo Freire e Camille Paglia. Seus textos participam também de algumas coletâneas, como Conversations with John Updike, As grandes entrevistas de O Globo e Milênio. O escritor acredita que todos os autores que leu exerceram alguma influência em sua obra. Entre os seus prediletos, destaca Graciliano Ramos, Jonathan Swift, Carlos Drummond de Andrade, Thomas Mann, F. Scott Fitzgerald, Jack London, Albert Camus e Anton Chekhov. Da lista de autores nacionais contemporâneos, cita João Ubaldo Ribeiro, Luiz Ruffato, Cristovão Tezza, Bernardo Carvalho, Milton Hatoum, Tatiana Salem Levy, Lya Luft, Lívia Garcia-Roza, Alberto Mussa e Raimundo Carrero.

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