A volta de Sherlock Holmes


Elementar, meu caro Watson! Quem não se lembra da famosa frase de Sherlock Holmes ao revelar, para o amigo e companheiro de aventuras Dr. Watson, como havia descoberto a pista dos criminosos? Os leitores se deleitavam com as brilhantes deduções do mais célebre detetive da literatura. E o próprio Dr. Watson, personagem-narrador das histórias, não escondia a admiração pela sagacidade com que Holmes conduzia os casos. “Na verdade, qualquer que fosse a natureza da investigação que meu amigo empreendia, havia, na mestria com que dominava a situação e em seu raciocínio aguçado, incisivo, algo que tornava um prazer para mim estudar seu sistema de trabalho e acompanhar os métodos rápidos, sutis, com que desvendava os mais inextricáveis mistérios”, comentou em um dos contos de As aventuras de Sherlock Holmes.

Seus disfarces e a audácia para desmascarar os farsantes também o impressionavam: “Entrou no quarto e voltou poucos minutos depois, caracterizado como um amável e simplório pastor não conformista. (…) Não se tratara de uma mera troca de roupa. A expressão de Holmes, suas maneiras, até sua alma pareciam se transformar a cada novo papel que assumia. O palco perdeu um excelente ator, assim como a ciência perdeu um cérebro afiado quando ele se tornou um especialista em crimes”. Como disse John Le Carré na introdução do livro: “Ah, ele se vira. Consegue dissimular, agir às ocultas, disfarçar-se a tal ponto que nem a mãe o reconheceria; é capaz de se fazer de morto ou de moribundo, de investigar em antros de ópio, engalfinhar-se com Moriarty à beira de um penhasco, ou enganar o espião do Kaiser”.

Para os que se perguntam qual o destino dessa série memorável de aventuras policiais produzidas pelo médico e escritor escocês Arthur Conan Doyle (1859-1930), o estudioso norte-americano Leslie S. Klinger, organizador da coleção Sherlock Holmes – Edição definitiva, comentada e ilustrada, publicada no Brasil pela editora Zahar, confirma o inabalável prestígio do detetive que conquistou fã-clubes no mundo inteiro. “Sherlock Holmes está perfeitamente vivo e passa bem. Os contos nunca pararam de ser reimpressos desde que foram lançados pela primeira vez em 1891, e os romances foram publicados em praticamente todas as línguas. (…) Holmes foi qualificado como uma das três personalidades mais conhecidas do mundo, partilhando os holofotes com Mickey Mouse e Papai Noel”.

Leslie Klinger comenta que o conto inicial Escândalo na Boêmia causou sensação quando apareceu na Strand Magazine, na Inglaterra, e a cada aventura publicada nas edições seguintes aumentava mais a circulação da revista. Na segunda série, chegou a aumentar em 100 mil exemplares. Conta-se que leitores faziam fila para comprar os novos números que traziam histórias de Holmes. A edição definitiva lançada pela Zahar em novo formato, com o texto integral, notas explicativas e informativas, e várias ilustrações originais de Sidney Paget, reúne todas as aventuras do detetive em nove volumes. Os cinco primeiros são de contos: As aventuras de Sherlock Holmes; As memórias de Sherlock Holmes; A volta de Sherlock Holmes; O último adeus de Sherlock Holmes e Histórias de Sherlock Holmes. Depois vêm os romances: Um estudo em vermelho; O signo dos quatro; O cão dos Baskerville e O vale do medo (ainda a sair).

Assim como nos contos, nos romances de suspense protagonizados pela dupla Holmes e Watson o leitor é deliciosamente capturado pelas tramas que, por trás da linguagem simples e direta, propiciam um profundo reconhecimento da complexidade humana. O cão dos Baskerville (1902), considerado o melhor romance policial já escrito, baseia-se em lendas locais sobre cães negros e fantasmas vingativos. Ambientada nas fantásticas paisagens da Inglaterra, a história se desenrola em clima de ameaças constantes, pistas enigmáticas e numerosos suspeitos. Watson brilha como narrador e investigador, até que Holmes entra em cena para enriquecer o drama e, claro, desvendar todo o mistério.

Para o singular detetive, que parecia ter um cérebro programado para decifrar crimes e encontrava evidências nas coisas mais simples, o segredo estava em saber observar. Como dizia a Watson: “Você vê, mas não observa. A distinção é clara”. Enquanto muitos enveredavam por raciocínios fantasiosos, ele ficava atento aos fatos e aos sinais mais óbvios. “Se quisermos encontrar efeitos estranhos e combinações extraordinárias, devemos procurar na própria vida, que vai sempre mais longe do que qualquer esforço da imaginação”. E quanto maior o desafio, mais Holmes se deliciava em se ocupar do caso. “Minha mente rebela-se ante a estagnação”, confessou. “Deem-me problemas, deem-me trabalho, deem-me o mais abstruso criptograma, ou a mais intricada análise, e estarei no meu elemento. Nesse caso posso prescindir de estímulo artificial. Mas abomino a rotina enfadonha da existência”.

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