O leitor indica: Manuel da Costa Pinto


Colunista da Revista sãopaulo, editor do Guia Folha – Livros, Discos, Filmes, editor dos programas Entrelinhas e Letra Livre, da TV Cultura, o jornalista e crítico Manuel da Costa Pinto assumiu mais uma função: diretor de programação da Feira Literária Internacional de Paraty (Flip). A escolha não foi por acaso – ele é hoje uma das pessoas que mais entendem de literatura no Brasil. O jornalista se tornou referência no mundo literário com a publicação de Albert Camus: Um elogio do ensaio, sobre as obras não-ficcionais de Camus, além de Literatura brasileira hoje e Antologia comentada da poesia brasileira do século 21, em que analisa a prosa e a poesia contemporâneas no Brasil.

O que despertou esse amor tão grande pelas letras? “A sensação ambivalente de estranhamento e de apego ao mundo – uma tensão expressa pelo escritor com o qual me identifico, Albert Camus“, afirma. É na leitura também que Manuel encontra inspiração e subsídios para seus textos. “Posso dizer que fui despertado para a literatura e, em especial, para a obra de Camus, por um livro escrito sobre ele pelo ensaísta argentino Horacio González. E leio sempre, todos os dias, seja por razões profissionais – minha coluna na Folha me obriga a ler um livro por semana -, seja como antídoto contra a realidade: literatura como legítima defesa!”

Para os leitores da Revista Platero, o jornalista selecionou alguns livros que considera indispensáveis:

Pensamentos, de Blaise Pascal – o projeto do físico e filósofo francês era escrever uma “Apologia da Religião Cristã”, destinada a converter os libertinos da corte francesa, porém ele morreu aos 39 anos, deixando apenas uma coleção de fragmentos, aforismos que constituem uma meditação sobre nossa miséria e nossa noite interior.

A Princesa de Clèves, de Madame de Lafayette – este clássico da literatura francesa revela os tormentos da paixão. Casada com um nobre da corte de Henrique II, a princesa de Clèves se apaixona pelo príncipe de Nemours, mas resiste ao adultério menos por respeito às convenções do que em nome do controle de si, da vitória sobre suas fantasias. Nenhum outro livro soube pintar com cores tão passionais essa paixão moderna: a conquista da autonomia, a preservação da integridade por meio daquilo que o ensaísta Roger Shattuck chamou de “prazeres da abstinência”.

O Vermelho e o Negro, de Stendhal – Stendhal criou o protótipo do herói que desafia a hipocrisia de seu tempo. Julien Sorel é um filho de camponeses que idolatra Napoleão Bonaparte e tenta ascender socialmente pela astúcia e pelas conquistas amorosas. Ele jamais deixa seu cruel ressentimento se converter em mero arrivismo pecuniário e vê sua vitalidade individualista ser punida por uma sociedade que reduziu o ímpeto revolucionário ao mais medíocre calculismo.

O Idiota, de Dostoiévski – o simplório príncipe Michkin (o “idiota” do título) disputa com o devasso Rogójin o amor da bela e ultrajada Nastácia Filíppovna. Dostoiévski transtorna as noções convencionais do realismo literário ao incluir, entre as determinações do mundo objetivo, nossas pulsões psicológicas (que oscilam entre o reles e o sublime, o amor e a perversidade) e nossa ambivalência espiritual, dilacerada entre desespero e desejo de redenção, culpa e expiação.

Dom Casmurro, de Machado de Assis – por trás dessa narrativa irônica, que descreve a passagem do devaneio amoroso à loucura do ciúme, está um dos romances mais cruéis de todos os tempos. O autor leva 120 capítulos, de um total de 148, para edificar a felicidade conjugal de Bentinho e Capitu. Em seguida, porém, tudo desmorona: a morte do amigo Escobar e os “olhos de ressaca” que Capitu deita sobre o defunto despertam em Bentinho a incontrolável suspeita de adultério. Machado mostra sadicamente que todo idílio traz o germe de sua devastação.

Poemas de Álvaro de Campos, de Fernando Pessoa – o engenheiro Álvaro de Campos criou uma poesia futurista, que ainda hoje capta o ritmo da modernidade – como em “Saudação a Walt Whitman”, “Passagem das Horas”, “Ode Triunfal” e “Ode Marítima” -, inoculando nessa paisagem em transe suas inquietações existenciais, como no hermético e deslumbrante “A Casa Branca Nau Preta” e, sobretudo, em “Tabacaria”, maior poema da língua portuguesa.

Os Sete Loucos & Os Lança-Chamas, de Roberto Arlt – estes dois livros devem ser lidos em conjunto (e por isso estão editados num único volume): trata-se de um romance em que desfilam sonâmbulos e visionários envolvidos em conspirações grotescas, que remetem à tradição dos folhetins e dos filmes B, mas mostram, com sua “teologia bufa” e suas metáforas alquímico-siderúrgicas, o lado fantasmagórico da civilização industrial, da utopia de plasmar a matéria e o mundo.

O Estrangeiro, de Albert Camus – é a expressão ficcional do absurdo, da equivalência de todas as coisas. Meursault, funcionário de um escritório em Argel, leva uma vida banal, sempre com distanciamento e indiferença, até o momento em que, sem nenhum motivo ou premeditação, comete um assassinato “por causa do sol”. Nesse “primeiro romance clássico do pós-guerra” (segundo Roland Barthes), Camus enxerga no cotidiano uma gratuidade que pode conduzir ao cadafalso e à clarividência sobre o absurdo de nossa condição.

O Gattopardo, de Giuseppe Tomasi di Lampedusa – é a história da decadência de uma família da nobreza siciliana do século 19, escrita por um aristocrata italiano. Livro de beleza crepuscular, o romance chegou às telas do cinema em 1963, na obra-prima homônima do cineasta Luchino Visconti.

Desonra, de J. M. Coetzee – sintetiza o pessimismo do escritor sul-africano, prêmio Nobel de 2003: o professor de literatura David Lurie cai em desgraça na universidade após transar com uma aluna. Vai para o interior, onde a filha vive numa comunidade alternativa e onde ambos sofrem a desgraça de um violento assalto perpetrado por um grupo de negros. O ateu e racionalista Lurie vive e assiste a tudo isso com um ceticismo frio e analítico, sem consolo ideológico, sem qualquer esperança de redenção ou graça espiritual.

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