Jorge Amado – O grande intérprete do Brasil

“Não nasci para famoso nem para ilustre, não me meço com tais medidas, nunca me senti escritor importante, grande homem: apenas escritor e homem”. Assim se definia um dos mais notáveis expoentes da literatura brasileira. Intitulando-se não um literato, mas um escritor que aprendeu com o povo e com a vida, o baiano Jorge Amado (1912-2001) é universalmente aclamado como o grande intérprete do Brasil, tendo seus livros traduzidos para dezenas de idiomas e adaptados para o teatro, o cinema e a televisão.

O contato próximo com o mar no litoral sul da Bahia, onde viveu experiências intensas na infância, e o fato de ter crescido na região cacaueira, em meio a conflitos políticos, disputas por terra, brigas de jagunços e pistoleiros, exerceram influência determinante em sua literatura. Histórias da beira do cais estão presentes em várias narrativas, e muitos de seus relatos são sobre as lutas, a crueldade, a exploração, o heroísmo e o drama associados à cultura do cacau que floresceu na região de Ilhéus nas primeiras décadas do século 20. Outra inspiração foi a descoberta do Candomblé, o que se reflete na sua visão da Bahia e do próprio país como uma nação mestiça e festiva.

Engajado nos conflitos de classe e nas dificuldades dos operários, o escritor começou sua trajetória na literatura abordando temas controversos para a época e desafiando os padrões vigentes, sendo inclusive perseguido e preso por isso. “Ele apostou muito cedo na ideia de sincretismo religioso e da mestiçagem, ressaltando a importância de valorizar a miscigenação. Jubiabá, escrito no início de sua carreira, já tinha como personagem central um negro”, observa Thyago Nogueira, responsável pela Coleção Jorge Amado, lançada pela Companhia das Letras desde 2008. “Os primeiros livros, escritos nas décadas de 1930/40, como Capitães da areia, Cacau, Suor, Mar morto e Seara vermelha, cutucavam a ferida das questões sociais. Capitães da areia, uma de suas obras de grande repercussão, trata dos meninos de rua em Salvador e de como a falta de perspectivas os leva a se envolver em problemas de roubo e sexo. É um livro superatual, que causou impacto ao ser lançado em 1937 e chegou a ser apreendido e queimado em praça pública pela polícia do Estado Novo.”

Depois dessa fase polêmica, Jorge Amado voltou-se mais para o cotidiano, a vida e as relações pessoais. Passou a falar muito de amor, das mulheres como figuras fortes e contestadoras, de sensualidade e de religião, dando ênfase tanto aos momentos de celebração quanto aos eventos ligados à morte. A partir do extraordinário sucesso de Gabriela, cravo e canela, que data de 1958, seguido por outros como Dona Flor e seus dois maridos e Tieta do Agreste, seus personagens viraram celebridades e a fama do autor rompeu fronteiras. A linguagem coloquial, a sonoridade e a liberdade dos textos num tempo em que isso era incomum cativaram definitivamente o público. “Seus livros são realmente saborosos de ler”, salienta Thyago. “Ele usa palavras e expressões populares de modo tão espontâneo que a sensação é de estar ouvindo alguém narrar as histórias. Percebe-se, entretanto, que há toda uma elaboração por trás. Não é simples como parece chegar nessa concisão e articular as palavras com tanta informalidade.”

Tanto por seu refinado trabalho literário, enriquecido com um vocabulário popular bastante significativo da região nordeste, como pela escolha de temas oportunos e atraentes, Jorge Amado ganhou projeção internacional. Sua aguçada percepção do que acontecia nas ruas, de como as pessoas se comunicavam e se relacionavam, e sua capacidade de reproduzir essas sutilezas humanas, transitando pelas várias camadas sociais, fizeram de sua literatura matéria-prima essencial para a leitura do Brasil. Se por um lado seus livros expõem realidades chocantes, que ainda hoje prevalecem no país, por outro transmitem a sedução de uma terra cheia de encantos e sensualidade.

Não são poucos os estrangeiros que vieram conhecer o país estimulados pela leitura de Jorge Amado e que ficaram fascinados pela maneira multifacetada com que ele retratou o Brasil. Em artigo de 1939, Albert Camus saudou o romance Jubiabá, publicado na França com o título Bahia de tous les saints, como “um livro magnífico e assombroso”. Nos atuais posfácios das edições que compõem a nova coleção, escritores como o moçambicano Mia Couto e o angolano José Eduardo Agualusa declaram-se devotos do escritor baiano, reafirmando a importância de sua obra. (…) Jorge Amado confirma que as cidades que nos seduzem não são da ordem da geografia, mas da invenção de cidadãos convertidos em fabulosos personagens, salienta Mia Couto em seu depoimento para o livro Tocaia grande. (…) Ninguém poderia imaginar que conquistaria o mundo e exportaria essa imagem de baianidade por uma enorme quantidade de línguas e culturas, comentou Ana Maria Machado no posfácio de Mar morto, referindo-se à época em que este título foi lançado pelo romancista, então com 24 anos.

Segundo Thyago Nogueira, o intuito do relançamento de sua obra, que deverá ser concluído pela Companhia das Letras em 2011, não foi apenas modernizar o visual das edições, mas contextualizar os textos, acrescentando informações de interesse literário: cronologia biográfica, alguns manuscritos do autor, comentários, fotos e dados históricos sobre a época de cada narrativa. A Coleção Jorge Amado, que abrange 34 volumes, entre eles uma caixa com três livros ilustrados de contos, O milagre dos pássaros, As mortes e o triunfo de Rosalinda e De como o mulato Porciúncula descarregou seu defunto – resgate de uma faceta pouco conhecida do autor, a de excelente contista -, despertou a saudade e a vontade de reler esse fabuloso retratista do comportamento e do jeito de ser do brasileiro.

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Arquivado em Revista Platero

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