O perfeccionista se torna escravo dos êxitos e vulnerável à frustração

Se você é daqueles que nunca está satisfeito com o que faz, sempre acha que poderia conseguir um resultado melhor e vive em busca de um padrão idealizado, bem-vindo ao time dos perfeccionistas! Provavelmente você sofre muito com isso. Cuidado, essa obsessão pode levar ao estresse e acarretar problemas de saúde.

O alerta é dado por Valéria Lemos Palazzo, psicóloga com especialização em Terapia Cognitiva Comportamental pela Universidade da Califórnia. “A energia despendida para alavancar os ideais de perfeição é sufocante. E quando alguma coisa fracassa surge a frustração, sentimento que os perfeccionistas não toleram e os faz cair numa crise de tristeza, agressividade e culpa. Nos relacionamentos sociais e pessoais, eles esperam que todos tenham o mesmo modelo particular de perfeição e se incomodam quando não conseguem aplicar aos outros suas regras de disciplina, gerando tensão”.

Profissionalmente, o perfeccionista tem dificuldade de confiar na capacidade dos colegas e não consegue delegar tarefas, sobrecarregando-se. “Sua obsessão pela perfeição o obriga a dedicar muito mais horas ao trabalho”, ressalta Valéria. “O grande problema, porém, é que ele nunca se satisfaz com os resultados que, mesmo sendo bons, ficam aquém das suas expectativas. Por outro lado, ele pode ser excessivamente controlador sob todos os aspectos de sua vida, mas se torna ‘escravo’ dos êxitos e vulnerável à frustração.”

O perfeccionismo é considerado um traço de personalidade: a gente nasce com ele. O que diferencia uma pessoa da outra é a amplitude e a intensidade com que essa característica se manifesta. “A educação representa papel determinante na sua evolução”, constata a psicóloga. “O indivíduo pode ter esse traço de personalidade exacerbado ou suprimido – nunca eliminado – de acordo com o meio que o cerca. Se a família incentiva a competitividade e vê o ‘ganhar’ como fator determinante de valor pessoal, e esses conceitos e crenças são também enfatizados pela escola e pela sociedade, o problema tende a se agravar.”

Um indivíduo perfeccionista jamais será desleixado. Ela observa, entretanto, que essa característica pode ser ‘modulada’ de forma a se manifestar como algo positivo tanto no campo pessoal como no âmbito social. A pessoa pode mudar aos poucos e com êxito, aprendendo a estabelecer prioridades sem buscar a perfeição, já que isto tira do foco o objetivo principal de suas ações. Precisa trabalhar melhor sua autoestima e adquirir confiança em si mesma, para combater a sensação de que qualquer erro será ‘terrível’, o que é uma fantasia, e perceber que, mesmo errando, não perderá o carinho e a aprovação dos outros.

Valéria Palazzo enfatiza ainda que a transformação do perfeccionista é concretizada através da reavaliação de seus conceitos e crenças. “Tudo o que vivenciamos – filmes, aulas, conversas, livros – influi na forma como vemos o mundo e contribui para essa transformação. Ler, por exemplo, é comparar os próprios pontos de vista com os do autor, recriando ideias e revendo conceitos. A leitura amplia nossa percepção e exercita nosso discernimento, fazendo com que reflitamos sobre aspectos da nossa vida. Esse autoquestionamento é determinante na reavaliação dos antigos conceitos e na formação de novos”.

A psicóloga aponta, como boas sugestões de leitura, Transformando a mente, do Dalai Lama, e Felicidade, de Eduardo Giannetti. Outros livros sobre o tema: Ninguém é perfeito – Uma história sobre o perfeccionismo, de Ellen Flanagan Burns, direcionado ao público infantojuvenil; Mania de perfeição, autobiografia de Anna Kindley; O perfeccionista, de Rudolph Chelminski, sobre o famoso chef Bernard Loiseau; O complexo de perfeição, de Colette Dowling; Esqueça a perfeição, de Lisa Earle McLeod e Johon Swan Neely; Livra-nos da perfeição, de Ricardo Peter.

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Arquivado em Revista Platero

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