resgate literário – MANUEL BANDEIRA

Andorinha lá fora está dizendo:
— “Passei o dia à toa, à toa!”
Andorinha,andorinha, minha cantiga é mais triste!
Passei a vida à toa, à toa…

Como expressar o vazio de uma vida de forma mais econômica, potente e, por outro lado, até cômica? Como conseguir tamanho grau de tristeza, sem apelar para nenhuma subjetividade ou lirismo auto-piedoso? Todos sabem que rir de si mesmo é sábio e trágico ao mesmo tempo, mas poucos saberiam, como Manuel Bandeira, transformar essa verdade do senso-comum em um poema simultaneamente simples e tão contundente.

Manuel Bandeira é uma das três faces do triângulo de grandes autores da poesia brasileira, na opinião unânime de críticos, pesquisadores, professores e do público. Os outros dois são Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto. No entanto, durante toda sua vida, Bandeira fez questão de se autodenominar poeta menor. Não que na palavra “menor” haja alguma comparação de valor em relação aos outros dois, ou mesmo em relação a qualquer outro poeta, daqui ou de qualquer lugar. O termo “menor” é justamente a medida exata de sua grandeza e, quem sabe, o traço que o diferencia.

É fato que, após a invenção de sua “poesia menor”, surgiram dezenas de discípulos e de imitadores desta poesia misteriosa, que é grande exatamente por ser pequena. Mas, além do fato de ser pioneira, nenhum de seus seguidores chegou ao grau de destilação, simplicidade e perfeição a que chegou Manuel Bandeira. Sua poesia é “menor” porque é a poesia do pequeno, dito de modo pequeno.

Davi Arrigucci Junior, um dos pesquisadores que mais fundo penetraram na obra de Bandeira, diz que o poeta “desentranhava” seus poemas da língua e da vida. É justamente essa a palavra. Bandeira extrai, de coisas aparentemente inócuas, isentas de carga afetiva ou simbólica, todo seu valor poético oculto. Assim, um cacto enorme atravessado numa rua qualquer, que, ao cair, atrapalha o trânsito, lembra Laocoonte contorcendo-se em meio às serpentes, ou Ugolino, um dos condenados no Inferno de Dante. Mas tudo isso sem a menor sombra de eloquência ou elevação linguística. Seria melhor dizer que a mitologia grega e a Divina Comédia é que vêm à rua conversar com o cacto que, este sim, é “belo, áspero, intratável”, palavras que traduzem, como poucas, o caráter do nordestino encravado na cidade grande.

Da mesma forma, desentranham-se do cotidiano um gatinho descansando numa pensão burguesa, um vendedor de balões, os negrinhos carvoeiros e a tuberculose do próprio poeta, como materiais de carga poética quase imanente, como se eles emanassem poesia sem que fosse necessário tocá-los com ela. Porque, em Bandeira, é como se não houvesse esforço no ato de atribuir poesia ao aparentemente não poético. Pelos seus olhos, ou melhor, com suas palavras, qualquer coisa parece capaz de conter força de poesia, embora só as palavras de Bandeira sejam capazes de fazê-lo.

No Itinerário de Pasárgada, espécie de tesouro autobiográfico e poético, em que Bandeira narra a genealogia de vários de seus poemas, o autor conta sobre sua produção feita a partir de “alumbramentos”, um tipo de iluminação súbita de que ele era acometido e que o fazia escrever de forma urgente, como que incontrolável. É importante, entretanto, que leitores mais incautos não confundam essa ideia de alumbramento com outra ideia, sua parente, de inspiração romântica, improviso, escrita do puro sentimento. Ao contrário. Na simplicidade de Bandeira esconde-se (e mostra-se) um grande rigor semântico, musical, sonoro e especialmente rítmico.

Maior mestre do verso livre, em sua poesia sobram musicalidade, firmeza e cuidado. Seus alumbramentos, por assim dizer, são certamente fruto de uma mistura inédita e única de grande conhecimento literário, experiência (de poesia e de vida), muita leitura, intuição, pensamento e, inegavelmente, um talento poético incomparável. Como conseguir, afinal, transformar fatos de sua vida, como a tuberculose, a morte do pai, da mãe, da irmã, a infância em Recife, suas visitas a Minas Gerais, em uma poesia sem nenhuma sombra de biografismo, apelação sentimentalesca, rompantes subjetivos?

Somente Manuel Bandeira foi capaz de construir esse rio, essa casa, essa concha da língua, em que simplicidade, humor, melancolia e densidade se reconhecem para formar uma poesia total.


Noemi Jaffe é doutora em Literatura Brasileira pela USP, escritora e professora, autora dos livros Todas as coisas pequenas; Do princípio às criaturas; Folha Explica Macunaíma e Ver palavras, ler imagens, entre outros.

 


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