espaço jovem – QUEREMOS HISTÓRIAS DE TERROR!

Histórias amenas, que falem só de gente boazinha atraem menos a garotada. Criança gosta de livro que tenha personagem vilão, que mexe com a emoção. “Todo mundo quer ter medo”, constata a escritora Tatiana Belinky que, em suas visitas a escolas, inicia o bate-papo com os pequenos leitores indagando: “Como é, querem uma história?” Todo mundo quer! Aí ela diz: “Quem quer uma história de rir?” Muitas mãozinhas se levantam. “Quem quer história de chorar?” Muitas mãozinhas também, não tantas, e mais das meninas. “E quem quer uma história de medo?” Todas as mãozinhas!

Ilan Brenman, bacharel em Psicologia, doutor em Educação pela USP, autor de vários livros infantis, como A cicatriz, Até as princesas soltam pum, O pó do crescimento, O livro da com-fusão, As 14 pérolas budistas e Mamãe é um lobo!, e contador de histórias, confirma a preferência. Antes de abrir um repertório de histórias, sempre pergunta para as crianças o que elas querem ouvir, e 90% das vezes a resposta é: terror. “Há duas hipóteses”, costuma brincar. “Ou essas crianças são psicopatas em potencial, ou anseiam por histórias de terror por outros motivos… Uma das principais razões é que elas trabalham o terror interno, ou seja, seus medos e fantasmas.”

Segundo o escritor, quando não se fala sobre o monstro, ele vira fantasmagórico. “Se as crianças pedem, é porque precisam disso para lidar com seus medos. Não fosse isso, o Voldemort, do Harry Potter, o Sauron, do O senhor dos anéis, o Lex Luthor, do Super-Homem e a Odete Roitman, da novela Vale tudo, não iam fazer sucesso. Sem o mau, sem o conflito, não tem história, fica chato. Na verdade, toda a complexidade dessas narrativas está retratando o que a gente vive dentro da nossa alma. A alma de todo ser humano – desde bebê até a morte – é, ao mesmo tempo, solar e sombria. As histórias de terror e de medo, as canções e as cantigas servem exatamente para por isso para fora e exorcizar, assim perde a força”.

Como um bom contador de histórias, Ilan tem na bagagem vários exemplos. Ele lembra que certa vez estava numa escola contando uma história de bruxa e percebeu uma menina com uma cara apavoradíssima. De repente, essa criança incorporou a bruxa e começou a montar um teatro em que ela era a bruxa. Ela usou a personagem de quem tinha mais medo para superar aquele momento, fazendo inclusive com que as outras crianças tivessem medo dela. Ela incorporou a bruxa para poder derrotá-la!

As histórias que Ilan conta para as crianças não são atenuadas. “Nos dias atuais, tem muita ‘higienização’, como eu costumo chamar. Não acho isso bom, acho até que tem uma questão ideológica por trás. As pessoas pensam que a criança não vai aguentar, mas é o que ela quer: ouvir essas histórias aparentemente mais punk. Uma vez estava na AACD, que atende crianças com deficiência, de cadeira de rodas… E pensei: ‘Será que conto histórias de bruxa?’, porque tem aquela coisa da deformação física e tudo mais. Eu contei essas histórias e foi um dos momentos mais emocionantes da minha vida. As crianças ‘piraram’ e, quando terminei, elas começaram a gritar: Bruxa! Bruxa! Elas estavam precisando disso e ninguém tem coragem de falar. Higienizar é tirar a oportunidade de a criança poder lidar com esses seus fantasmas”.

“As pessoas só querem ver na criança felicidade, alegria, mas elas têm também seu lado de tristeza, de sadismo”, comenta Ilan. “Quem não conhece histórias de ciúmes entre irmãos, de birra? Ou mesmo de sadismo, quando as crianças querem matar formiguinhas… Essas histórias têm a função de ajudar a reconhecer esse nosso outro lado. Dmitri Karamázov, do Os Irmãos Karamázov, de Dostoiévski, dizia: ‘A luta entre Deus e o diabo se dá dentro do coração humano e não fora’. Ou seja, a briga entre o bom e o ruim é cotidiana dentro da gente. Ciúme, inveja, amor, carinho, compaixão… Isso também está na vida da criança. Todos esses sentimentos precisam encontrar um eco e foi para isso que a arte criou a história. A criança se sente tão agradecida, tão feliz…”

O livro Cinderela chinesa, de Adeline Yen Mah, conta a história verdadeira de uma menina que foi abandonada pelo pai, a mãe morre e vem uma madrasta, é terrível. “Essa menina encontra consolo nas histórias tristes”, explica Ilan. Ela pensa: ‘Encontrei alguém que me entende, personagens com quem me identifico’. E a avó fala: ‘Essas histórias serão seu talismã contra o desespero’. E é isso o que elas são e você não precisa tirar o desespero da história para ela se tornar um talismã. Muito pelo contrário, as boas histórias carregam isso. Por isso fazem sucesso as que têm o mau bem definido, como Harry Potter e O ladrão de raios“.

Outros livros sobre o tema indicados por Ilan: A bruxa Salomé, de Audrey e Don Wood, As bruxas, de Roald Dahl, a coleção O pequeno vampiro, de Angela Sommer-Bodenburg, e Histórias de fantasmas, de Charles Dickens.

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Arquivado em Revista Platero

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