Espaço Jovem: A força das ilustrações

Não só as crianças se encantam com livros ilustrados. Em qualquer idade, é fascinante passear por esse universo criativo, que conduz a imaginação a voos surpreendentes. Os desenhos são capazes de transmitir intenções, sensações e pensamentos muitas vezes difíceis de serem traduzidos em palavras. Interagem com as histórias de maneira perspicaz e divertida, dando mais vida às situações e aos personagens, despertando os sentimentos e a emoção do leitor.

E como são talentosos os profissionais dessa área! Alguns artistas renomados se destacam inclusive pelo trabalho autoral, cativando o público com suas histórias sem palavras. É o caso de Eva Furnari e sua série dedicada “aos bichos assustados”, com livros como Bruxinha Zuzu e gato Miú, que traz várias querelas entre gato, cachorro e rato, intermediadas pela bruxinha Zuzu. As aventuras de Bambolina, de Michele Iacocca, inspirou até peça de teatro ao narrar, através da expressiva linguagem visual do autor, a comovente trajetória de uma boneca que é desprezada e jogada fora, trocada por um novo brinquedo.

O artista gráfico Istvan Banyai mescla realidade e imaginação em sua curiosa obra O outro lado, apresentando cenas e objetos vistos de dois ângulos, de dentro para fora e de fora para dentro. O mote é: tudo tem um outro lado. O escritor e ilustrador Odilon Moraes, por sua vez, confirma que é possível dizer muito e tocar o coração das pessoas com desenhos sem qualquer rebuscamento. É nas nuances e nos contrastes das cores que ele imprime a força das mensagens, como no premiado Pedro e Lua e em O presente.

Há muitos livros em que as imagens não apenas acompanham o texto, como acrescentam conteúdo, enriquecendo a história. Um bom exemplo é o livro Gracie, a gata do farol, de Ruth Brown. Cada página é uma pintura digna de ser emoldurada. Isso, porém, não é tudo. Ao mesmo tempo que retratam a luta desesperada de uma gata para salvar seu filhote do mar revolto, os desenhos mostram um episódio verídico, ocorrido em setembro de 1838 na Inglaterra: o resgate de náufragos, numa noite de tormenta, por Grace Darling e seu pai, vigia do farol de Longstone.

Nessa linha, vale ressaltar o trabalho diferenciado de Mariana Massarani, que não se limita a ilustrar os textos. Com um traço “simples, selvagem e gaiato”, como ela mesma define, seus desenhos criam uma atmosfera propícia à história, adicionando elementos divertidos ao contexto. Uma de suas parcerias brilhantes pode ser vista no livro Mania de explicação, de Adriana Falcão, em que uma menina muito astuta inventa uma explicação para cada coisa: Ansiedade é quando faltam cinco minutos sempre para o que quer que seja. Tristeza é uma mão gigante que aperta o seu coração. Sucesso é quando você faz o que sabe fazer só que todo mundo percebe…

A imaginação também não tem limites nas bem-humoradas e nada convencionais ilustrações de Suppa, que interagem com as narrativas de forma inusitada, como em Sonho de bruxa, Onde tem bruxa tem fada e A coisa. Outro desenho bastante original é o da dupla Lalau e Laurabeatriz, autor e ilustradora de livros infantis poéticos como Uma cor, duas cores, todas elas e Faz e acontece no circo. E há uma infinidade de publicações que estimulam o contato com a natureza e os animais, desde séries singelas e graciosas como as do casal Mary e Eliardo França, que marcaram tantas gerações e continuam fazendo sucesso, até trabalhos inovadores como o Abecedário de aves brasileiras, de Geraldo Valério, que retrata mais de vinte espécies, utilizando a técnica de colagem sobre papel.

“As crianças são muito visuais e, quando vão escolher um livro, o que mais chama a atenção delas são as ilustrações”, afirma Valeria Breganholi, vendedora da Livraria Martins Fontes que tem grande conhecimento do setor infantojuvenil. “As imagens ajudam a passar a mensagem e vão puxando as histórias. Isso desperta a vontade de ler e desenvolve a imaginação. Muitas vezes é o que dá o clique da leitura. Até poesias ganham encanto maior quando ilustradas. A nova edição de A arca de Noé, poemas infantis de Vinicius de Moraes, ficou ainda mais atrativa com os desenhos de Nelson Cruz.”

Segundo Valeria, muitos ilustradores têm um traço característico e são facilmente identificados pelo público. “Alguns cativam pela simplicidade, pelo toque infantil e divertido, como Mariana Massarani e Suppa. Eva Furnari, que tem um desenho encantador, é reconhecida especialmente pela sua Bruxinha, personagem que a consagrou, além de textos como Pandolfo Bereba, que se tornaram célebres. Ela foi convidada a ilustrar as obras infantis de Erico VerissimoRosa Maria no castelo encantado, As aventuras do avião vermelho e outras que, com novo projeto, ficaram uma delícia de ler e passaram a ser muito mais procuradas. Os bons desenhos sempre enriquecem o livro. É gostoso ver ilustrações bonitas e inteligentes”.

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Arquivado em Revista Platero

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