O LEITOR INDICA – Comentários de Zuza Homem de Mello

Poucas pessoas no Brasil têm a vivência, o conhecimento e a sensibilidade musical de Zuza Homem de Mello. Formado em musicologia pela Juilliard School of Music de Nova York, ele afirma que sua tendência musical se manifestou desde cedo. “Segundo minha mãe, eu já assobiava no berço”, brinca. O gosto pela escrita surgiu nos tempos do colégio, quando compunha poesias. “A universidade do escritor é a leitura. A pessoa só aprende a escrever depois de ler muito. Eu ficava horas na biblioteca lendo, principalmente sobre música. Não queria tocar um instrumento ou ser músico, mas escrever sobre música”.

Tendo exercido várias atividades, todas relacionadas com a área musical – engenheiro de som do Teatro Record nos célebres programas e festivais da emissora, diretor dos shows O fino da música e dos Festivais de Verão do Guarujá e programador do Free Jazz Festival e do Tim Festival, entre outras -, Zuza hoje colabora regularmente para o caderno Eu & Fim de Semana do jornal Valor Econômico. É autor de vários livros, como Eis aqui os bossa-nova, com depoimentos originais dos próprios criadores da bossa-nova contando sua história; A era dos festivais, uma parábola sobre os festivais de música desde 1965 até 1972, que inspirou o filme Uma noite em 67; A canção no tempo, dois volumes feitos em parceria com Jairo Severiano; João Gilberto, enfocando a música do criador da bossa-nova e Música nas veias, com memórias e ensaios sobre o jazz e a música brasileira.

Para os leitores da Revista Platero, ele selecionou algumas obras que considera marcantes para sua formação na música popular brasileira:

Noel Rosa – Uma biografia, de João Máximo e Carlos Didier – dá um completo e detalhado panorama não só da vida de Noel, mas também da época em que ele viveu, a partir de 1929, quando compôs suas primeiras canções, até sua morte, em 1937.

Balanço da bossa e outras bossas, de Augusto de Campos – uma visão profissional da bossa-nova através de artigos publicados no jornal O Estado de S. Paulo, que vão até os festivais e a tropicália. Abrange dois aspectos interessantes da bossa-nova: o harmônico e melódico, mostrado pelo maestro Júlio Medaglia, e o lado poético da letra, analisado pelo poeta Augusto de Campos.

Pequena história da música popular, de José Ramos Tinhorão – o livro tem várias edições e, em cada uma, o autor foi ampliando, revendo, às vezes até mudando o título. A mais recente inclui Da modinha à lambada. Tinhorão é o autor mais preparado para falar sobre as raízes da música brasileira.

Os sonhos não envelhecem, de Márcio Borges – relata, com grande fidelidade e muito sabor, a época em que surgiu o Clube da Esquina, dos compositores mineiros Milton Nascimento, Tavinho, Toninho Horta, Fernando Brant, Lô Borges, essa gente criadora de um movimento tão importante quanto a Tropicália.

Verdade tropical, de Caetano Veloso – muito bem escrito, traça um panorama de Caetano como compositor, abordando diversos nomes e várias formas musicais. É imprescindível para se entender um período mais recente da música popular brasileira.

Carmen, de Ruy Castro – na primeira parte, enfoca com riqueza de detalhes o período inicial da Carmen Miranda, os anos 1930, quando ela cantava no Brasil. Na segunda, mostra a atuação da cantora nos Estados Unidos, com o fato marcante de ser o único nome brasileiro conhecido lá fora antes que surgisse a bossa-nova. Grande escritor, fluente, Ruy Castro faz o leitor ficar totalmente absorvido.

Uma história da música popular brasileira, de Jairo Severiano – fica clara a abrangência musical do autor, além de sua memória fantástica. Neste livro, ele coloca todos os seus conhecimentos sobre a música popular brasileira. É sem dúvida a primeira obra a ser lida para quem quiser ter uma ideia completa da música popular do Brasil.

Tropicália: a história de uma revolução musical, de Carlos Calado – o jornalista apresenta uma pesquisa abrangente e um panorama da tropicália que até agora não foi superado.

Padeirinho da Mangueira, de Franco Paulino – embora trate de um sambista de morro não tão conhecido como Cartola e Nelson Cavaquinho, mostra a condição de vida desse compositor e o que o levou a expressar sua experiência através da música.

Tons sobre Tom, de Tarik de Souza e outros – traz depoimentos valiosos sobre Tom Jobim. Não há ainda um livro específico biográfico à altura da grandeza de Tom, por isso eu reputo este como o mais indicado.

Antonio Carlos Jobim: um homem iluminado, de Helena Jobim – vale a pena pelo viés da intimidade do Jobim visto pela sua irmã.

Bim bom, de Walter Garcia – o que importa sobre João Gilberto é a sua música, e o Walter fala dela com muita propriedade. Violinista, ele faz uma análise técnica do violão e do canto do grande músico.

Além desses, faço questão de mencionar alguns livros que estão fora de catálogo, mas também foram de extraordinária importância na minha juventude: Aspectos da música brasileira, de Mário de Andrade, História da música brasileira, de Renato Almeida, Panorama da música popular brasileira, de Ary Vasconcellos e Nosso Sinhô do samba, de Edigar de Alencar.

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