NO DIVÃ – Quando o humor vira um transtorno

Diogo Lara: "O humor saudável reage de acordo com a situação"

Excesso de tristeza, irritação ou euforia, sem que haja um motivo real para isso, é sinal de que algo não vai bem. Segundo o médico psiquiatra Diogo Lara, quando as reações são incompatíveis com o que está acontecendo, fora de proporção e de tempo, esse desequilíbrio emocional passa a se configurar como doença. “O humor saudável reage de acordo com a situação e está sempre se autorregulando: a pessoa fica alterada por um determinado período, mas consegue se recompor e se ajustar de novo ao ambiente. É o que eu chamo de ‘dançar conforme a música’. No transtorno de humor, esse ‘piloto automático’ que restabelece a energia deixa de funcionar”.

Pesquisador e doutor em neurociência, autor do livro Temperamento forte e bipolaridade, que já vendeu 50 mil exemplares no Brasil e está na 10ª edição, o psiquiatra explica que o distúrbio se manifesta de formas diferentes. Pode se caracterizar como uma depressão pura, em que a pessoa fica mais reclusa, não tem vontade de fazer nada, não vê mais colorido nas coisas nem sentido na vida, ou como transtorno de humor instável, denominado bipolar, em que se alternam ou se misturam momentos de euforia, irritabilidade, ansiedade e depressão.

Muita gente confunde tristeza com depressão e temperamento forte com transtorno bipolar, o que acaba levando a diagnósticos e tratamentos inadequados. “É fundamental saber distinguir os problemas, inclusive os tipos e graus de depressão – há depressão com e sem irritação, por exemplo -, pois os remédios são diferentes”, adverte o médico. “É preciso avaliar também o temperamento da pessoa. Se o indivíduo tiver uma natureza mais branda, seu quadro será diferente do apresentado por alguém com temperamento forte e combativo, ou mais dramático e exagerado”.

De modo geral, a depressão tem como principais sintomas a tristeza, a falta de prazer, o desânimo, alterações do apetite e do sono, inquietude ou apatia, impossibilidade de concentração, pensamentos negativos e ideia de suicídio. Como saber se é depressão ou apenas tristeza? “A tristeza tem um motivo claro”, esclarece Diogo Lara. “Quando acontece uma coisa ruim, a pessoa fica triste, abatida, e depois vai se recuperando e retomando suas atividades. Se ela perde alguém próximo, por exemplo, os primeiros dias de luto serão piores do que as semanas seguintes, e assim por diante. Na depressão não há essa melhora, a pessoa permanece inativa”.

No transtorno de humor instável, que também tem vários graus, o psiquiatra destaca como características fortes a oscilação acentuada de humor e a imprevisibilidade das reações. Quem tem apenas temperamento forte costuma reagir sempre de maneira parecida, seja com raiva, seja com entusiasmo, mas tem um padrão. O bipolar deixa de ter um padrão consistente e passa a ter um repertório de comportamentos imprevisíveis que vão de um polo a outro. Tem picos de euforia e de depressão, intercalando momentos de ansiedade, irritação e agressividade. Para lidar com a frustração e a tristeza, recorre a estratégias ativas de forma descontrolada, como comprar demais ou comer muito. Tudo é em excesso: bebida, comida, sexo, jogo, drogas, festas.

Tanto na depressão quanto no transtorno bipolar, a recomendação é que o problema seja identificado o mais rápido possível, para evitar que o distúrbio se agrave e ocorra um declínio maior da capacidade de se reequilibrar. “A primeira providência é procurar um bom especialista. As pessoas ainda demoram muito para buscar ajuda, ficam sofrendo, tentando resolver sozinhas e não conseguem, porque sua capacidade de se controlar e se autorregular está prejudicada. O segundo passo, imprescindível no processo de recuperação, é se dispor a seguir o tratamento e não interromper por conta própria. Enquanto o problema não estiver totalmente resolvido, a pessoa fica vulnerável a ter uma recaída, e até mais forte. Melhorar 70% não é suficiente. Hoje se sabe que é preciso melhorar 90%, 100%, senão ela pode voltar a ter o transtorno”.

Em seu livro Temperamento forte e bipolaridade – Dominando os altos e baixos do humor, Diogo Lara esclarece vários pontos dessa questão, explicando detalhadamente como é o transtorno de humor, a necessidade e a eficácia dos medicamentos e a função da psicoterapia, entre outros aspectos. Descreve também as características e implicações de cada tipo de temperamento – fator primordial para a adequação do tratamento. “É preciso entender como a pessoa é, quais são suas dificuldades, e tentar lapidar seu temperamento por meio de remédios, exercícios físicos e outros recursos, impedindo que o transtorno se manifeste ou evolua”. A leitura, a seu ver, ajuda no processo de psicoeducação: saber identificar o problema e o que fazer para lidar com ele.

“Os casos de transtorno de humor vêm aumentando muito e ocorrendo cada vez mais precocemente”, constata o psiquiatra. “Uma das causas é o excesso de estímulos. A cabeça da criança capta isso de maneira intensa e ela não consegue se controlar. Até dentro do restaurante as crianças estão sempre com um joguinho na mão, não conseguem parar e se ajustar a um ambiente de baixo estímulo, e vão ficando cada vez mais turbinadas. Dormem tarde, não têm um sono de recuperação. Claro, existe a parte genética também, mas o ambiente tão cheio de informação, de estímulos e de estresse contribui para a pessoa sair do eixo. O mundo hoje oferece muito mais ameaças à regulação do humor”.

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Arquivado em Revista Platero

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