O leitor indica – Comentários de Walcyr Carrasco

Com seu jeitão descontraído de escrever, Walcyr Carrasco conquistou uma legião de fãs através de suas crônicas bem-humoradas, seus livros, peças de teatro e novelas de sucesso, como Alma gêmea, O cravo e a rosa e Caras & Bocas.

Formado em Jornalismo pela Escola de Comunicação e Artes da USP, ele afirma que a opção pelo jornalismo foi com um olho no desejo de ser escritor. “Na minha imaginação, ser jornalista seria algo próximo a ser escritor. Que nada! São atividades completamente diferentes. O jornalista lida com a informação, o escritor com a criatividade. Um jornalista criativo inclusive pode ser perigoso, mas um escritor com o conhecimento jornalístico pode crescer muito, porque aprende a verificar informações, pesquisar e criar textos mais exatos”.

Walcyr iniciou sua carreira como repórter na revista Veja e trabalhou em vários veículos de comunicação de destaque durante muitos anos. Paralelamente, escrevia seus livros infantojuvenis e peças de teatro. Atualmente, é contratado da TV Globo e está desenvolvendo uma novela para o ano que vem. Recentemente, lançou três novos livros infantojuvenis na coleção Todos juntos: A ararinha do bico torto, Pituxa, a vira-lata e Meus dois pais. No dia 15 de julho, estreia uma nova peça em São Paulo com dois textos curtos, Desamor e Seios.

Seu amor pelas letras surgiu aos 11 anos, quando “descobriu” Monteiro Lobato. “Eu me apaixonei e percebi que queria ser escritor”, comenta. “E entre as minhas obras, que são tantas, destaco a coleção Todos juntos, porque é feita para falar das diferenças e da aceitação. Meus dois pais é o primeiro livro de temática gay para crianças escrito no Brasil. Fala de um garoto que vai morar com o pai e descobre que o amigo do pai na verdade é seu companheiro. E vive um processo de aceitação. Também adoro minhas novelas! Gosto muito de O cravo e a rosa, foi superdivertido escrevê-la. E meu novo espetáculo de teatro representa uma virada no que eu vinha escrevendo, portanto estou felicíssimo por ainda estar disposto a ousar, a fugir de fórmulas!”

Convidado a indicar 10 livros que considera marcantes para os leitores da Revista Platero, Walcyr Carrasco preparou a seguinte relação:

A reforma da natureza, de Monteiro Lobato – Emilia critica o mundo tal como é e resolve mudá-lo. O livro é divertidíssimo e me deu, desde adolescente, a certeza de que nada é imutável. Abriu minha cabeça!

Bola de sebo, de Guy de Maupassant – É um conto inesquecível. Nele, Guy de Maupassant desvenda a hipocrisia da sociedade ao narrar o conflito de uma prostituta patriota convencida a passar uma noite com o inimigo austríaco e depois desprezada pelos burgueses.

Os miseráveis, de Victor Hugo – É um livro emocionante que fala sobre a alma humana, a Justiça, ao contar a história de Jean Valjean, ex-presidiário. O personagem da prostituta Fantine também é comovedor. Uma das mais belas passagens que já li na vida é a do bispo ao entregar seu único bem, dois castiçais de prata, a Jean Valjean. Eu fiz uma adaptação para adolescentes com todo cuidado, porque amo esse livro. Mas quem puder ler o original, faça isso!

O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde – Ao falar sobre um homem que nunca envelhece, o autor coloca a contradição entre aparência e essência. É uma conversa profunda sobre “o espelho da alma”.

A infância de um chefe, de Jean-Paul Sartre – É um conto longo, onde Sartre conta o processo de formação de um rapaz. Na narrativa, explicita sua filosofia existencialista, segundo a qual cada um de nós é fruto de suas próprias escolhas.

Drácula, de Bram Stoker – O primeiro grande livro sobre vampiros, narrado de maneira magistral. Impossível parar de ler!

Shikasta, de Doris Lessing – Sou enlouquecido pela autora inglesa que já mereceu o Prêmio Nobel. Nesse livro, ela rompe com o realismo, gênero no qual escreveu o também brilhante O carnê dourado, para narrar a história mística do planeta. É tocante esse encontro entre a literatura e o misticismo.

Dom Casmurro, de Machado de Assis – Por mais que se tenha falado de Capitu, sempre se pode dizer mais alguma coisa. É uma “Gioconda” da literatura cujo comportamento intrigante, como o meio sorriso da pintura de Da Vinci, me fascina. Já li várias vezes e cada vez descubro coisas novas.

Capitães da areia, de Jorge Amado – uma obra-prima sobre a vida dos menores abandonados, emocionante e atual até hoje.

Antes do baile verde, de Lygia Fagundes Telles – um dos muitos contos fascinantes da autora, onde para uma garota o desejo de ir ao baile se sobrepõe à consciência de que o pai está morrendo.

Foram só dez? E onde ponho Madame Bovary, de Flaubert; Os Maias, de Eça de Queiroz, Em nome do desejo, de João Silvério Trevisan, Galvez, de Márcio de Souza, O tempo e o vento, de Érico Veríssimo e Cem anos de solidão, de Gabriel García Márquez? Para não falar de tantos outros!

* Matéria feita pela ML Jornalismo para a Revista Platero n. 9/julho 2010, publicação da Livraria Martins Fontes

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