O delicioso vício de ler quadrinhos

Quem é fã de quadrinhos vai  ficar encantado com as novidades que chegam às livrarias brasileiras. Há uma variedade incrível de lançamentos nessa área, adaptações europeias, americanas e japonesas dos mais diversos gêneros, para todos os gostos e bolsos. Autores cultuados, como Neil Gaiman, Bill Watterson, Will Eisner, Quino e Osamu Tezuka, figuram ao lado de novos expoentes, como Craig Thompson e Marjane Satrapi, com álbuns cada vez mais atrativos e interessantes em formato de livro e primorosa produção gráfica.

“O mercado brasileiro de quadrinhos atravessa um momento bem singular, com um material de extrema qualidade e muita diversidade. Apesar de não terem tiragens enormes, são obras diferenciadas que, há dez anos, ninguém sonhava encontrar por aqui”, diz o jornalista Sidney Gusman, editor-chefe do portal Universo HQ. “Quando eu imaginaria que seriam lançadas no Brasil obras como Retalhos, de Craig Thompson, uma das graphic novels mais premiadas dos últimos tempos e, na minha opinião, a melhor HQ lançada aqui em 2009; e Kiki de Montparnasse, de José-Louis Bocquet e Catel Muller, a HQ deste ano!, biografia de uma diva francesa dos anos 30 que era modelo de todos os grandes pintores? Ou um quadrinho alternativo como Umbigo sem fundo (sobre os conflitos gerados pelo divórcio de um casal após 40 anos de união), de Dash Shaw?”

Transmitir a emoção no desenho é a grande sacada dos quadrinhos, conforme ressalta Gusman. E o grande barato é ver como os autores experimentam isso, como conseguem aliar texto e imagem, fazendo com que o desenho agregue conteúdo. Nas cenas comoventes, às vezes brutais de Retalhos, autobiografia de Thompson – “um daqueles livros que você não vê a hora de virar a página para saber o que vem depois” -, o autor conta uma história de amor e de desilusão, traduzindo o que sentia por meio de metáforas visuais. A imagem de seu carro despencando de um precipício, por exemplo, nada mais é do que uma forma simbólica de expressar a angústia de ir embora.

Will Eisner, segundo o jornalista, é o maior de todos os tempos. “Para mim, ele é o Pelé dos quadrinhos. Um autor completo, que compôs roteiros apaixonantes e conseguia fazer uma arte sempre inovadora, colocando a ‘câmera’ em lugares que ninguém imaginava. Muitos tentam copiá-lo, mas não conseguem. Há obras geniais dele aqui, como Avenida Dropsie – A vizinhança e Um contrato com Deus“. Outro nome mundialmente consagrado é Osamu Tezuka, conhecido no Japão como ‘o deus do mangá’. “Ele tem dezenas de trabalhos publicados, que vão do mais puro entretenimento, como A princesa e o cavaleiro, a mangás adultos narrados em ritmo de romance, como a emocionante série Buda“. Nessa categoria de grandes talentos que unem bom desenho e bom texto, Gusman inclui ainda Hugo Pratt, autor das aventuras do marinheiro errante Corto Maltese.

Na transição do infantil para o juvenil, o editor do  Universo HQ cita Asterix como um dos quadrinhos mais apreciados. “Os autores, René Goscinny e Albert Uderzo, ensinam História de uma forma divertida, com Asterix e Obelix viajando por todos os cantos e fazendo brincadeiras com os diversos povos. É um dos meus favoritos”. Sem esquecer da Mafalda, de Quino, a garotinha contestadora que foi criada pelo cartunista argentino na década de 1970 e continua atualíssima; e do pequeno Calvin, de Bill Watterson, que, em suas traquinagens e conversas com o tigre de pelúcia Haroldo, tem grandes tiradas sobre as pessoas e a vida.

Para Gusman, Neil Gaiman, célebre criador de Sandman – série cult, com histórias fabulosas sobre o mundo dos sonhos – e de outras obras cheias de magia e misticismo, como Mistérios divinos, “encanta até quem não é leitor de quadrinhos”. Destaca ainda, como grande sucesso de público, Persépolis, de Marjane Satrapi, iraniana radicada na França, que cativa os leitores pela força de seu relato sobre a cultura do Irã e de seus desenhos simples e expressivos; e Maus, de Art Spiegelman, primeira graphic novel ganhadora do Prêmio Pulitzer, que usa a metáfora dos animais para transmitir a dor e as emoções vividas na Segunda Guerra Mundial.

Responsável pela área de planejamento editorial da Mauricio de Sousa Produções, que conquistou a garotada com a famosa Turma da Mônica e agora alcançou a faixa dos adolescentes com a Turma da Mônica Jovem, Sidney Gusman constata que as boas opções disponíveis no Brasil vêm atraindo cada vez mais leitores. “Aquele preconceito tolo de que quadrinho é coisa de criança está acabando. As livrarias têm espaços especiais para as graphic novels, e os nichos são os mais variados: tem documentário, tem quadrinho underground, tem quadrinho cabeça, tem quadrinho autoral, tem tudo”.

“O quadrinho é uma forma fantasiosa e divertida de contar histórias reais e ficcionais, propiciando viagens para os lugares mais distantes do planeta ou para dentro de si mesmo. É uma mídia que permite voos cinematográficos sem limitação de orçamento. Se eu quiser fazer um filme com um vulcão explodindo, atingindo um avião que, ao cair, causa um maremoto, vou gastar milhões de dólares. Em quadrinhos, vou gastar algumas páginas. Só depende da criatividade e do talento dos autores.” 

* Matéria feita pela ML Jornalismo para a revista Platero n. 9/julho 2010, publicação da Livraria Martins Fontes

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